27 de May de 2016

Algo no jeito dela andar me faz esquecer todos os amores que se foram. Lembro-me de um dia. Eu estava indo para a faculdade, meio que pela décima terceira ou décima quarta vez. Minha vó me deixava no ponto de ônibus perto do Shopping, que não era próximo de casa, pois apenas ali eu conseguiria pegar o coletivo com ar condicionado. Acho que era a quarta ou quinta vez que eu ia nele. Quando estava sentado, já a meio caminho do campus, ela entrou. O 555 deslizava rapidamente pela grande avenida. Balanços, solavancos, laços de braços e ela ali, parada, no alto dos seus 1,67 metros, como se nada tivesse acontecendo. Aquilo sim era uma mulher, eu pensei enquanto ela descia num ponto da Praia do Canto com a sua camiseta branca, sem manga e bastante apertada. Ela poderia facilmente fazer quase qualquer homem sofrer. E eis que, 9 anos depois, ela está aqui. Talvez não ela, exatamente ela, mas o jeito como ela toma conta de qualquer lugar é o mesmo. É ela, ou muito dela que está em outro alguém.

E ela me corteja. Algo no jeito dela me cortejar como um céu azul encarando a nuvem indesejável. Ela mexe os cabelos. Ela nem precisa mexer os cabelos! Mas não é que… NÃO É QUE FICOU MELHOR AINDA DEPOIS QUE ELA MEXEU!? Sim. Faz muito tempo que eu não vejo nada parecido. Fico imaginando como deve ser o seu toque, mas não tenho a mínima curiosidade de tocá-la, a mínima vontade de que isso aconteça. Aprendi que vida não é bela. Nada supera o prazer de um sonho bom. Se é acessível, cansa.

Algum respingo do seu sorriso é por saber que nenhum outro me interessa. Algo me faz crer que sim. E que quando ela sorri é como transar ouvindo Beatles em Las Vegas, numa suíte presidencial. Ou só transar ouvindo Beatles. Cada som de sua voz tem um novo acorde que eu nunca imaginei ouvir. Cada palavra que ela me diz é um sim, o silêncio um não. E o meu coração não fica acelerado, pois sabe o quanto doce e suave seria esse amor.

As minhas manhãs, as minhas tardes, as minhas noites. Tudo o que me resta é pensar nela, de preto, vindo em minha direção – como um cometa que extinguiu os pobres dinossauros. Fico imaginando os seus pelos arrepiados, enquanto beijo o seu corpo sem nenhuma pressa, nenhuma vontade de desvendar-lhe o mais cruel dos segredos.

25 de May de 2016

Quando ela abriu a porta. E sorriu. Todas as rosas se fizeram rosas. Todas as horas se perderam no caminho de volta. Todas as lágrimas se fizeram páginas passadas. Ressecadas. Destroçadas.

Ela andou. Parecia que algo magnífico aconteceria a qualquer segundo, mas ela só andou. Sentou-se. Os meus olhos estavam paralisados, mudos, anestesiados. E os seus olhos me olhavam enquanto os lábios sorriam para outro alguém. Ela acariciava as sobrancelhas de um jeito, ah, mas de um jeito. E piscava, piscava. Como um sinal vermelho quebrado.

Quando ela falou meu nome. E partiu. Todas as outras se fizeram nada. Todo o tempo se fez espaço. Todo o pouco amor que eu tinha guardado acordou, cresceu, amou e amou. As noites eram tão claras. Iluminadas, Desesperadas.

Sabe?

Ela andou. Ela não tinha um defeito sequer. Nem a voz esganiçada. O sorriso fácil, tampouco. O defeito estava em outro que lhe cruzou o caminho. Que momento desoportuno!

Eu poderia amá-la. Eu poderia. Como quem ama uma flor no deserto. Eu poderia ouvi-la por horas sem dizer nada, simplesmente pelo prazer de sua sutil beleza que se aproxima e não toca.

Esse fogo que me consome por dentro. Essa dor do que não vou viver é o que mais machuca e me faz pensar no sentido dessa coisa toda.

Talvez o sentido seja só sentir.

Eu sinto muito.

24 de May de 2016

De você eu pude ter tudo,
mas agora não tenho mais nada.
Quero e peço apenas os teus olhos…
Quero que olhem para mim quando eu for embora.
Quero que vejam portas e janelas
onde só houver muros.

Quero que sigam os meus olhos e me descubram os segredos…
Quero que olhem por mim quando não estiver mais aqui.

Quero que me sigam e me queiram,
mesmo sem saber o porquê.
Eu quero os teus olhos, que dizem tanto…
Quero que me vejam chegar até você.

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2 de March de 2016

Há pensamentos demais na minha pobre cabeça. Há cores demais neste arco-íris que paira sob meus olhos. Ele vai passando, passando, trazendo coisas, levando coisas e tudo que eu posso fazer é não me importar com nada.

As coisas nunca foram tão coloridas, tão tristemente coloridas, mais melancólicas do que nos piores filmes em preto e branco. Alguém pergunta as horas, ou então vai me matar? Tem sempre um lugar onde você não está. Ele é sempre muito melhor.

Como é triste escrever mal. Cada palavra com o peso de uma vida, de uma vida inútil que não traz inspiração nem para versinhos em redondilha menor.

Já me esqueci de tudo que eu te disse. Foram frases decoradas, tristes e sagradas, feito missas toda a madrugada,

O pensamento é a guerra, a guerra civil do ser. Entro no teu corpo, quero te conhecer.

Estou esvaziando. Minhas esperanças se esvaindo. Os meus cabelos já não têm mais caracóis. Talvez, eu seja um pouco exagerado.

Estamos na estrada certa: a trilha louca do poeta.

Mariana me disse certa vez que eu era um bacaca. Mariana tinha razão, desta vez ela estava coberta de cobertura de caramelo e de razão,

Mariana, eu queria me desculpar pelo não-beijo. Pela não-ligação, pela não-intenção e por não ter feito tudo errado.

Mariana, Mariana. Se você soubesse de todas as poesias que não escrevi. De todas as noites que dormi, acordado. De todas as portas que eu fechei abertas.

Mariana, Mariana. Se você soubesse das minhas semanas que começavam na sexta e terminavam no domingo, não me julgaria por tão pouco.

Mariana, se você visse o ódio nos olhos daqueles dragões. Os flashes que quase me fizeram desmaiar, o frio que me fez suar e o labirinto até a porta certa.

Mariana, se você soubesse o que eu passei. O medo em cada gole de cerveja. A paz em cada gole de cerveja. A certeza de que tudo iria melhorar e depois voltava, mais forte, mais forte. Se tivesse os sonhos que eu tinha, Mariana, você não me julgaria por tão pouco.

Você me abraçaria, através da eternidade dos abraços.

Você me diria o que você não sente.

E eu admitiria

que menti, Mariana.

Eu menti.

Eu não te amo.

22 de October de 2015

“Vamos escrever juntos?”,
sempre me perguntava
e eu não sabia o que ele pretendia
com aquilo, já que nossas vidas
aparentemente não eram as mesmas,
nada parecidas.

“Por que ainda não fizemos nada?”,
lamentava,
e hoje ele é um roteirista bastante
conhecido e maravilhosamente competente
e renomado.

Mas eu não pude acompanhá-lo, ele
não entenderia os meus sentimentos
nem eu os dele.
Desolado, agora, vejo seu sucesso.

Ontem, ele me ligou e pediu a minha
“ajuda num projeto de seriado”.
“Você topa?”

Eu pensei, olhei em volta e tudo fez
muito menos sentido que seu
convite amigável.

– E aí, topa? Vamos escrever juntos?
– Vamos!

E agora, que eu sou o seu apontador de lápis oficial
(acariciador de ego de competência comprovada),
nunca mais falta dinheiro para a cerveja.

Hoje eu sei que ao recusá-lo
só era para adiar o que eu já sabia.
– Que ele é muito melhor do que eu.

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21 de October de 2015

Havia um par de luvas sobre a mesa, quando abri a porta e encontrei a casa tristemente vazia. Os móveis ainda estavam todos por lá e a televisão ligada agonizava um filme desses de quarta-feira à tarde. Eu fora almoçar sozinho, depois que ela me disse não ter fome. Que não estávamos bem era certo, mas a atitude me deixou realmente surpreso e, principalmente, desolado.

Como pode o ser humano ser tão burro? Eu tratava ela tão mal, não respeitava sequer um traço de sua individualidade e gostava de levá-la comigo, pelas ruas, mostrando o meu grande prêmio para os desconhecidos a quem queria impressionar- o amor incondicional que ela nutria por mim, o qual pensei que nunca se extinguiria. E o que me restou dela foi só este par de luvas brancas (até as contas todas ela pagou antes de ir embora).

Sou um homem no momento mais triste de sua existência. O homem-egoísmo que só consegue pensar em si mesmo, mesmo quando pensa no outro. Se ela voltasse agora, infelizmente, eu faria tudo exatamente igual. E é este “saber-se errado” e não conseguir mudar – ser errado de forma orgânica – que torna tudo ainda mais difícil. Quase que um animal irracional consciente de sua irracionalidade e da racionalidade de outro.

Um tigre-de-bengala paralítico e saciado procurando a mais nova forma de se  lascar (ou inventando, não duvido).

E, por isso, não sei mais o que é o amor – só o amor a mim mesmo me cativa e serve de força. Um desejo quase sexual de matar todas as vontades e de não morrer nunca (ou de morrer sempre). O eterno orgasmo que a gente não tem (enquanto passamos horas e horas sentados no vaso, torcendo para que tudo acabe e fiquemos limpos).

Não há amor nenhum em ficar sozinho, botar uma cerveja para gelar, abrir uma cerveja e assistir a um jogo de futebol (brasileiro ou americano). Isso é intelectualmente e emocionalmente nulo: é garimpar a solidão. Lapida e ainda é solidão. Se não houvesse pressão o carvão não viraria diamante. E ser egoísta é o jeito mais tolo de lidar com a pressão. O egoísmo faz a gente acreditar que somos gênios e que os outros são tolos. A eterna arte de renomear nossa tolice como genialidade.

E depois de 3 dias, as luvas já eram irrelevantes. Escondidas em algum armário de inutilidades, junto com poesias e palavras de amor verdadeiro endereçadas ao meu coração galinha de Leão.

Minha mãe me disse uma vez que eu era igual ao meu pai. Eu bati a porta na cara dela. Gritei que não. Não. Não! NÃO!

E eu estava certo: sou muito pior.

E enquanto o amor navega em águas distantes, calmas e verdes, sou alheio, abandonado no meio desse deserto de areia, calor, solidão e saudades de não-sei-o-que-lá. E quando a nossa música tocar, quando o nosso programa começar a passar, quando me chamarem por algum apelido que você me deu, virá uma pontada arrebatadora no meu peito. Que eu não sei como curar.

18 de October de 2015

Deixe este amor te matar,
como uma rosa mata uma ilusão,
como o espinho fere um coração
com frio e medo de continuar.

Sempre é cedo para morrer de amor,
morrer de amor não dói.

Cante a canção que te encanta
enquanto a noite cai lenta, ao relento
baixo da plantação e os braços dados
já não se podem separar.

Deixe o amor te matar, aos poucos,
como o processo de abate de um porco,
como uma viagem de ônibus demorada,
como dirigir sozinho sem ver a estrada.

Sempre é tarde para quem não morreu de amor,
tão cedo, já vai embora.

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11 de October de 2015

Ouça-me, Deus. Nunca fui um ser humano surpreendente. Grandes vitórias, reviravoltas, aspirações e sonhos – nunca espere de mim. Talvez só grandes medos. Mas espere, Deus. Todo tolo tem direito a um dia de rei. E aquele foi um dos meus dias.

Bêbado, ensaguentado, jogado na lama. E tudo estava bem. Cada aspiração de texto era uma página em branco. História sem clímax que eu vivia, dor nos olhos e dor na alma. Calma, Deus, não fiz nada de errado (pelo contrário). Como sei da sua bondade, piedade, paixão, atenção, etc, resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer.

Uma taça de boa cerveja gelada e um jogo aceitável de futebol americano na TV já não eram o bastante. A falta de tesão já não me dava tesão (nem a vontade de estraçalhar o teclado a cada parágrafo mal escrito). Fui sonhar, Deus. Permita-me?

A América é linda e é tão lindo sentir dor por aqui. Estar perto da morte onde estou nem assusta. A possibilidade de não encontrar um bar aberto é mais dolorosa. No começo lutava, suspirava e vivia por uma retribuição de olhar – esse sonho bobo de fazer amor loucamente com uma estrangeira – no fim das contas não foi tão louco assim (mas foi bom).

Emagreci alguns quilos, afinal, não como. Tenho dinheiro de sobra para os próximos 3 anos. Depois disso, o que vier.

Se vier.

É prejuízo.

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29 de April de 2015

Descobri que estou apaixonado
e que o chão duro sob meus pés
são passos petrificados que
me levam em direção ao “não”.

Estou apaixonado
sem que as pernas tremam
Estou apaixonado
sonhando toda noite com fama e dinheiro.

As manhãs são escuras quando estou
apaixonado e os dias são longos e
previsíveis, enquanto minhas mãos
secas roçam pretensiosamente os
seus cabelos, quando queriam na verdade
lhe puxar o pescoço para um beijo e uma
surpresa óbvia na altura da cintura.

Descobri que estou apaixonado
amo tanto, mas nem as paredes sabem.
Você me acha um bobo que senta logo
ao lado e te dou toda razão por pensar assim
ao meu respeito.

Eu penso em te gritar
e calo.
Eu canto e só eu posso ouvir
esta melodia fúnebre que ecoa
da calma da minha aura sem cor.

Eu sou tão bobo
procurando o seu olhar,
você é a dona dele e me faz procurar
em todas as esquinas enquanto a avenida
segue em ritmo lento.

E eu, sonho com um acidente de percurso.

27 de April de 2015

As pessoas, sempre
as pessoas
decapitando a poesia,
silenciando as reticências
com seus travessões inoportunos.

Inoportunas, sempre
as pessoas
invadindo qualquer espaço
em busca de alguma explicação inútil
para o que não podem entender.

Entendam, pessoas.
Sempre
o Sol estará lá
a lua brilha mais aqui
e vocês não vão saber nada
ao sentirem um vago suspiro de luz.

As pessoas, sempre
as pessoas
estão aborrecendo meus planos,
planejados em tristes vis anos
eu vou me afastar de vocês.

Por favor, não resistam
ao dia e à luz que ele emana
deixem de lado seus esquemas tolos
só faz sentido a terceira face da moeda.

O que você não vê
é só o que me resta
o que você não crê
a minha loucura atesta.

Estou só, rodeado dessas pessoas
e suas frases feitas
suas noites perfeitas
seus sorrisos falsos
seus passos sem som
sua tristeza aparente alegria
estupidez profunda, pleonasmo do pleonasmo.

Suas vozes graves a clamar por mim.

E é mais um dia de manhã.